ACADEMIA NACIONAL DE FARMÁCIA
Acadêmico
Caio Romero Cavalcanti
DD
Presidente da Academia Nacional de Farmácia
Senhores
componentes da mesa
Senhoras,
Senhores e Jovens
Saudação
A vida
nos reserva surpresas e alegrias. Foi com surpresa, uma especial surpresa
quando, através do Prof. Luiz Gonçalves Paulo, tomei conhecimento de que a
Academia Nacional de Farmácia tinha me acolhido como um de seus membros.
À
surpresa inicial adveio a honra e alegria de ter sido agraciado com tão
significativa e importante distinção.
Ao
sentimento de honra juntou-se o orgulho de saber que ocuparia a cadeira nª 4,
que foi de Christovam Buarque de Hollanda.
Ao
privilégio de me saber herdeiro de tão insigne figura somou-se o peso da
responsabilidade de dar continuidade ao grandioso trabalho realizado pelas
gerações precedentes de farmacêuticos.
Nunca
imaginei chegar à Academia Nacional de Farmácia. Humildemente, estava
convencido de que outros colegas valorosos tinham mais méritos para ocupar uma
posição de tanto realce.
Se hoje
me incorporo, emocionado, à Academia Nacional de Farmácia, devo essa homenagem
à insistência de um amigo, que de tudo fez para que a mesma acontecesse. Esse
amigo e companheiro, de muitos anos, é Vicente Nogueira, a quem agradeço por
seus esforços e entusiasmo nesta empreitada típica de um padrinho.
Esta é
uma solenidade com conteúdo social, muito diferente das reuniões que fazemos
neste auditório. Ela faz referência a ações e reflexões que ocorreram num
passado distante e também recente.
Ações e
reflexões que fazem parte do passado representam marcos sobre os quais nos
apoiamos, para que possamos atingir objetivos e metas, que esperamos possam
ocorrer no futuro.
Gostaria
muito de resgatar feitos do passado remoto, lembrando Hipócrates e de forma
particular Galeno, talvez o mais famoso médico e farmacêutico de nossa
História.
Do
passado não muito distante temos apenas alguns fragmentos. Destes, se constata
que nossos antepassados propugnavam por uma vida melhor para os brasileiros,
muito focada no atendimento farmacêutico e na busca de novos remédios. Era essa
a visão dos farmacêuticos e médicos, na época em que ainda não exista a
Indústria Farmacêutica.
Numa
breve abstração, se voltássemos às últimas décadas do século XIX, iríamos
encontrar um reduzido grupo de idealistas que obstinadamente buscavam minorar o
sofrimento de seus conterrâneos. Muitos de nossos colegas, lutavam para
combater a peste, a varíola, a malária, a tuberculose, a poliomielite e acima
de tudo as infeções.
Christovam
Buarque de Hollanda, brasileiro de Pernambuco, fazia parte deste grupo de
idealistas. Sua principal bandeira era a do conhecimento e sua difusão. Foi um
dos líderes que propugnava pela criação de uma Escola Livre de Farmácia para a
cidade de São Paulo, na expectativa de que os problemas da saúde da população
seriam resolvidos ou minimizados com mais farmacêuticos.
Notas
históricas
O ciclo
de evolução da profissão farmacêutica no Brasil contém fatos marcantes, a
maioria deles desconhecida da população e também de muitos profissionais de
nossa categoria. Nestes se encontram ações que germinaram e que continuam a se
multiplicar entre nós.
Valendo-me
dos registros da Profª Maria Aparecida Pourchet Campos, em seu livro "A
vida da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo"
editado em 1984, encontramos notas históricas que nos remetem aos primórdios do
ensino farmacêutico em São Paulo. Destes registros extraí alguns fatos que nos
permite compreender e interpretar a evolução da profissão farmacêutica
estruturada, como idealizada por vários representantes de nossa sociedade.
Até
1889, o único estabelecimento de ensino superior existente na então Província
de São Paulo era a Faculdade de Direito. Em 1893 foi criada a Escola
Politécnica.
Atendendo
aos anseios de uma coletividade ainda em estruturação, a Lei 19, datada de 24
de novembro de 1891, autorizava a criação de uma Academia de Medicina, Cirurgia
e Farmácia, na cidade de São Paulo. Para esta instituição ficaram reservados
quinhentos contos de réis do orçamento do Estado.
Desde
então, inúmeras foram as atividades e manifestações, muito especialmente da
Sociedade Farmacêutica Paulista, criada em 1894. Christovam Buarque de
Hollanda, era o 1º Secretário da novel associação que congregava 8 Diretores e
12 outros sócios fundadores.
A
Revista Pharmaceutica, órgão oficial da Sociedade Farmacêutica Paulista, em sua
edição de 15 de maio de 1895, tinha o seguinte editorial: "São Paulo tem
necessidade de uma instituição d'onde saiam moços capazes de trabalhar em
química, habilitados para a indústria e com coragem e conhecimentos bastantes
para se enfrentarem com as dificuldades de uma análise séria e
importante".
Em 1896,
na mesma revista aparecia o editorial "a missão do Governo não está
terminada.. Uma Escola de Farmácia Modelo, talhada nos moldes das da França,
Rússia e outros países onde o farmacêutico é justamente respeitado como um
homem de ciência pela perfeição do ensino que recebe, viria completar o ciclo
dessas reformas que têm proporcionado ao Estado de São Paulo lugar proeminente
na Federação brasileira".
Muitos
nomes, dentre os quais se incluem Frederico Schaumann, José Eduardo Macedo
Soares, Bráulio Gomes, Luiz Manoel Pinto de Queiroz, João Baptista da Rocha,
Luiz Cursino, José de Paula Souza Camargo, França Pinto, Joaquim Mariano da
Rocha, além de Christovam Buarque de Hollanda que hoje se prestam à
identificação de ruas ou dar nome a instituições de ensino, estão ligados à
criação ou direção da Escola de Farmácia, precursora de nossa Faculdade de
Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo.
A
Bráulio Gomes coube o privilégio de ser o primeiro Diretor da Escola de
Farmácia criada em 12 de Outubro de 1898, bem como a ele coube a tarefa
desafiadora de fazer funcionar e prosperar um ideal de muitos de nossos
compatriotas.
Christovam
Buarque de Hollanda fez parte da primeira relação de docentes da Escola de
Farmácia, tendo sido designado catedrático da disciplina de Botânica I, tendo
como colega Alfredo Loefgren que se ocupou da cátedra de Botânica brasileira.
Passados
mais de um século, apesar da criação de muitas outras faculdades de Farmácia,
da inserção do Brasil no rol dos grandes produtores de medicamentos, da
existência de um considerável número de farmacêuticos no mercado de trabalho e
de suas dedicadas atuações, é possível verificar que os problemas na pesquisa,
na produção, no controle, na dispensação de medicamentos e outras atividades
correlatas, ainda são muitos.
Com
estas constatações tem-se a impressão de que os ideais de Christovam Buarque de
Hollanda não foram atingidos. No entanto, imaginem em que estágio estaríamos
hoje se o que ocorreu no passado não tivesse sido realizado.
O
desafio
Se
fizermos uma abstração, transportando-nos para o período de criação de nossa
Escola de Farmácia, certamente iríamos constatar que nossos colegas daquela
época não poderiam prever a espetacular evolução das ciências farmacêuticas. Em
um pouco mais de 100 anos, essa evolução foi simplesmente espetacular.
Somente
para lembrar, em pouco mais de um século, muitas doenças foram enfrentadas, com
balanço favorável em nosso favor. Algumas foram erradicadas, como o caso da
varíola e da paralisia infantil; outras apenas contidas, como sarampo, febre
amarela, certos tipos de infeções, cardiopatias, etc; muitas ainda nos
desafiam, como os diferentes tipos de câncer, aids, hipertensão, diabetes,
Alzheimer, mal de Parkinson, mal de Chagas, etc.
Sem ter
a preocupação crítica com o que ocorreu no passado, ou seja até aqui, mas
olhando para o futuro, é possível identificar muitos desafios que ainda temos
que enfrentar em nossa profissão.
Afirmar
que nossa profissão tem como finalidade apenas trabalhar, ou seja produzir,
controlar, pesquisar, ensinar, atender, etc, não é tudo.
Afirmar
que a contribuição de nossa profissão na evolução da qualidade de vida é
grande, não é a máxima recompensa que almejamos.
Certamente
também não é verdadeiro que tenhamos atingido o máximo nível de desenvolvimento
que poderia ter sido alcançado.
No campo
da saúde, em nível mundial, constata-se que 'o homem sofre física e
economicamente'. Sofre fisicamente porque não se dispõe de medicamentos
apropriados para uma grande variedade de moléstias e economicamente porque não
existe recursos para o acesso aos medicamentos que já estão disponíveis.
Por
isso, dizer que estamos plenamente satisfeitos não é uma expressão verdadeira.
Ainda temos muitos desafios a enfrentar.
O
estágio atual do processo evolutivo dos medicamentos, seja do ponto de vista
científico quanto do tecnológico, é simplesmente espetacular. Porém, ele pode
ainda ser superior.
Os
diferentes ramos das ciências físicas, químicas e biológicas estão cada vez
mais interligados, atingindo sinergia próxima dos modelos idealizados na
ficção. Destas interações surgiram, estão surgindo e surgirão novos
medicamentos que, até algumas décadas atrás, pareciam inimagináveis.
Exemplos
desta evolução não faltam, que caracterizam novos princípios ativos originados
das sínteses químicas e conhecimentos da biologia e da genética, que colocaram
à disposição da classe médica inúmeros medicamentos novos no "arsenal
terapêutico". A essas inovações se incorporam novos recursos físicos para
fins de diagnóstico.
Por
outro lado, a capacidade tecnológica inovadora ultrapassou os limites da
imaginação, tanto na química fina quanto na clássica tecnologia farmacêutica,
mas muito especialmente na biotecnologia e na nanotecnologia. Nestas últimas
estão depositadas as nossas maiores esperanças na luta contra as enfermidades
que ainda nos desafiam.
Nesse
contexto, dizer aos novos farmacêuticos que ainda temos muito a pesquisar,
produzir e controlar, parece desnecessário.
A
postura de mudança, que poderá nos levar para um futuro melhor tem que ser
assumida. Para que isso aconteça temos que mudar nossa estratégia, planejar a
mobilização dos recursos existentes e dos novos que precisaremos e começar a
mudar as práticas.
Se por
um lado, estamos ansiosos por momentos de alegria e satisfação, temos que estar
preparados para aqueles períodos de provação, que também chegam juntos e geralmente são sucessivos.
Uma
análise acurada de tudo o que assistimos e de tudo o que participamos, nos
permite identificar as ineficiências cometidas. Esta é a parte de nossas
decepções e tristezas.
Estes
períodos de privações e decepções representam, para cada um de nós, motivação
para revisar metas e objetivos, rever valores, replanejar atividades, para
reprogramar o futuro. Significa, em outras palavras, nossos desafios em busca
de uma vida melhor.
Por
falar em vida melhor, entenda-se que não significa apenas o bem estar
profissional, pessoal ou familiar, mas também o bem estar de toda uma
coletividade que usufrui de nosso conhecimento e de nossas habilidades.
Capitular
diante de tantos desafios parece ser o caminho de alguns, enquanto que outros
se colocam na posição ofensiva para enfrentá-los. Mesmo que neste momento
sejamos impotentes para enfrentar, de forma efetiva, as moléstias que nos
desafiam, toda e qualquer forma de resignação tem que ser combatida.
Em
outras palavras, o conformismo e o desalento não podem ser nosso destino.
Na
qualidade de Acadêmico desta entidade, não posso mostrar-me conformado com o
injusto tratamento que dispensamos a nossos patrícios.
Temos
que lutar por uma assistência farmacêutica extensiva a todos que dela precisam,
mesmo que não tenham dinheiro para pagar pelos medicamentos.
Tenho
certeza que meus pensamentos se juntam aos dos companheiros desta Academia e a
de tantos outros nossos patrícios.
Espero
que no futuro distante, alguém se lembre de nossos brados por apoio às pesquisas
no sentido de encontrarmos solução para problemas já conhecidos, bem como pela
instituição de programas de assistência farmacêutica a todos os brasileiros que
dela necessitam, da mesma forma que bradava Christovam Buarque de Hollanda
bradava pela criação de uma Faculdade de Farmácia, que a seu ver viria suprir o
atendimento farmacêutico que a população brasileira necessitava.
Imaginem
o que seria de nosso setor industrial farmacêutico se não tivéssemos tido
Christovam Buarque de Hollanda.
É imprescindível
formar profissionais farmacêuticos e outros não farmacêuticos que possam atuar
com sucesso nas pesquisas que ainda serão realizadas e que nos ajude a
encontrar um eficiente mecanismo para a assistência e atendimento farmacêutico.
O
papel da Academia Nacional de Farmácia
A
Academia Nacional de Farmácia congrega pessoas que já demonstraram terem dado
muitas contribuições para as suas respectivas categorias profissionais.
Em
princípio poder-se-ia deduzir que o fato de já terem dado contribuições estariam agora na condição de
usufruir alguns momentos de fama, isentando-se de novas ações.
Esse é o
grande diferencial. Agora, com a experiência de vida, não só profissional, têm
maiores condições de dar suas mais importantes contribuições para a coletividade.
Muito
provavelmente suas ações agora se constituam de reflexões, processo codificado
para ações que terceiros poderão adotar e implementar.
As
reflexões, de um modo geral, constituem avaliações entre desvios de padrões de
desempenho em relação a ideais desejados ou fatos consolidados. Fatos
consolidados constituem-se de desvios de padrões de desempenho que são
conhecidos, mas que parece que estão incorporados à nossa cultura, que nos
condenam a conviver com os mesmos, pois parece que para eles não há solução.
Nesses
desvios se incluem omissões, negligência, falhas, ineficiências e erros,
diariamente constatados.
As
percepções são formas especiais de analisar nossas deficiências, que nos
orientam para ações de melhorias.
Embora
não constituam problemas, algumas deficiências, quando tratadas adequadamente
representam oportunidades de melhorias.
Tudo o
que pudermos fazer para reduzir ou eliminar as omissões, negligências, falhas e
erros, se refletirão em maior eficiência e com menores perdas. Consequentemente,
promoverão redução de custos de nossos
produtos e de serviços, facilitando o acesso aos medicamentos pela população e
maior possibilidade de custeio dos mesmos por parte do governo. Tudo isso tem a
ver com o futuro.
Fazendo
uma abstração do que será daqui a 100 anos, estou certo de que algum registro
será feito a partir do estágio onde estamos e de onde estarão, para citar
feitos espetaculares conseguidos por nossa atual geração de cientistas
brasileiros.
Tenho fé
na capacidade criativa dos atuais e muito especialmente dos novos cientistas,
muitos dos quais serão relembrados por seus feitos, como aqui lembramos vários
deles, inclusive Christovam Buarque de Hollanda
Aos meus
colegas do Departamento de Tecnologia Bioquímico-Farmacêutica e da Faculdade de
Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, quero registrar meu
especial agradecimento pelo apoio que me prestam e por manterem inabalada a
missão de ensinar nossos jovens.
Quero
registrar o apoio decisivo e incentivo constante de meus mentores e superiores,
sem o qual certamente não teria conseguido alcançar muitos objetivos em minha
carreira profissional. Aqui no Sindusfarma recebi apoio para a meta pragmática
estabelecida por Omilton Visconde, apoio
objetivo de Gianni Franco Samaja para implementação de objetivos do Sindusfarma
e, atualmente de Ciro Mortella e de Omilton Visconde Júnior para os planos e
programas da Febrafarma e Sindusfarma, aos quais sinceramente agradeço.
Agradeço
também a todos aqueles que ajudaram e me ajudam, nas atividades que desenvolvi
e que estou desenvolvendo, que contribuíram sobremaneira para esse
reconhecimento público.
Não
posso deixar de registrar meus agradecimentos à nossa equipe interna, que
lideradas por Raquel Toledo se encarregou, em conjunto com a Academia Nacional
de Farmácia, de organizar esta recepção.
Registro
especial tenho que fazer a meus filhos Reinaldo e sua esposa Sandra e Regina e
seu esposo Sérgio e, muito especialmente ao Enzo, meu netinho querido, que
juntos à minha esposa Marilena, são minha razão de viver.
Quero
encerrar voltando a falar do futuro.
Como
disse Peter Drucker, do futuro sabemos apenas duas coisas: a primeira - não
sabemos como será; a segunda - não será como foi no passado.
Por
isso, se não for como foi no passado e se não sabemos como será o futuro,
resta-nos apenas desenvolver e implementar ações para forjá-lo, usando nosso
conhecimento, nossa capacidade criativa e nossa liderança.
Assim
fizeram nossos colegas, há mais de um século, que ajudaram a forjar um futuro
que, certamente, foi muito além do que poderiam prever.
Ocupar a
posição que foi de Christovam Buarque de Hollanda, na Academia Nacional de
Farmácia, coloca-me na condição e na obrigação de poder dar alguma digna
contribuição à coletividade brasileira.
Espero
ter forças e um pouco de engenho e arte para estar à altura desse desafio e da
honraria que me está sendo concedida.
Muito
obrigado a todos.
Lauro
Domingos Moretto
São
Paulo, 29 de Março de 2005.
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