CONTRIBUIÇÃO PARA A HISTÓRIA


CONTRIBUIÇÃO PARA A HISTÓRIA DA FARMÁCIA EM PERNAMBUCO (*)
“A FOSFORITA DE OLINDA” Fósforo assimilável para a agricultura no Brasil

Quando estudante de Farmácia da então Universidade do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco, tive o privilégio de conviver com o saudoso Professor Dr. Júlio Alcindo de Oliveira. Na simplicidade e modéstia que o caracterizavam, associados a um patriotismo e cultura transbordante era um amigo dos alunos e os estimulava nas tarefas de pesquisa junto à comunidade, principalmente no tocante aos produtos naturais com destaque a cálcio, fósforo e outros minerais existentes na formação geológica de Pernambuco, com o objetivo de aproveitá-los industrialmente.
Um desses dias, rebuscando minhas anotações de aulas, encontrei o original de sua palestra datada de 22 de outubro de 1962.
Ao transcrevê-la, faço minha modesta homenagem ao grande mestre, a quem muito devem a Farmácia e a sociedade de Pernambuco.
Grandemente interessados em todos os campos da química que possam contribuir para a redenção econômica do Nordeste e principalmente em Pernambuco, procuramos conhecer de perto as ocorrências de fosfatos na costa do Estado, principalmente nas proximidades de Olinda.
Com esse objetivo, fomos levados até o “Forno da Cal” gentilmente pelo Prof. Paulo Duarte uma das vigorosas afirmações de estudioso dos nossos problemas, saído da Escola de Engenharia de Pernambuco, onde alicerçou sua formação cultural solida e tão bem aproveitada.
Como acertadamente afirmou o engenheiro Olivéro A. Leonardos, a descoberta da fosforita em Forno da Cal não era mera obra do acaso, mas a recompensa justa de um colaborador continuado, racional e persistente do Prof. Paulo Duarte. Pesquisava ele com um grupo de farmacêuticos águas minerais e calcários na região, quando foi despertado para a formação geológica que mostrava pertencer pelo menos em parte, semelhante à conhecida na África do Norte, com grandes depósitos de fosfatos há muito explorados comercialmente.
Assim, abertos a todas as manifestações, inclusive inúmeras negativistas resolvemos manter a rotina analítica de determinações do fósforo em todos os perfis colhidos, do que resultou a descoberta em 1949 de inúmeros depósitos de fosforita que esperávamos em breve vermos explorados em beneficio do nosso Estado.
Tal descoberta deverá revolucionar em bases técnicas, todo nosso trabalho na lavoura não somente como suporte técnico, mas permitindo evitar as importações de adubos fosfatado, verdadeira sangria do nosso dinheiro (Vol. IX dos Anais da Sociedade de Biologia de Pernambuco 1949).
Deixamos que o fato em si fosse apreciado por outros técnicos e determinado o rumo dos acontecimentos de acordo com sua importância.
É na opinião do Dr. Leonardo – um dos maiores achados minerais da década, comparável a dos depósitos de Manganês do Amapá por Fritz Ackerman, e dos depósitos de Scheelita do Nordeste por Raimundo Preá, Loel Dantas, Agostinho Brito e outros.
Felizmente os poderes governamentais não ficaram indiferentes e o Ministro João Cleofas à frente do Ministério da Agricultura, determinou providencias para os trabalhos de prospecções para conhecimento da área total e viabilidade de exploração.
Dos estudos já realizados, devemos ressaltar a importância da jazida que já conta por mais de 3.000 hectares, com estimativa de 45 milhões de toneladas, antevendo-se 100 milhões somente na região de Forno de Cal e Fragoso, estendendo-se pelo Estado da Paraíba.
Segundo os estudos do Eng. Francisco M. Vasconcelos, que dirige os trabalhos do Departamento Nacional de Pesquisa Mineral, o perfil do Forno de Cal, mostra que a camada de Fosforita está de 8 á 20 metros abaixo da superfície, tendo uma espessura de 2 a 4 metros. Quanto ao teor, o fosfato de cálcio oscila entre 35 a 54% , sendo a concentração maior nos três primeiros metros da espessura da camada.
De posse dessas amostras que nos foram cedidas gentilmente pelo Prof. Paulo Duarte, fomos levados pelo enorme prazer de manipular riqueza genuinamente nossa, a fazer ensaios sobre o teor de fósforo assimilável.
Na Faculdade de Farmácia, procedendo as análises tivemos a satisfação de ver posteriormente nossos resultados estarem estreitamente aproximados a outros obtidos por diversos renomados técnicos.
Descrição, análises e métodos: o material se apresentava em blocos pequenos, branco-amarelado, frágeis podendo facilmente serem partidos com a mão.
Triturado e passado por tamização (peneira de 300 mesh) obtivemos um pó fino. Iniciamos ao ensaio de solubilidade no ácido cítrico á 2% (Reativo de Wagner), aplicando as técnicas deste e de Schleiniger.
Pela primeira dessas técnicas foi a amostra de uma grama submetida a uma só lavagem com 500 ml do reativo, durante meia hora com agitação permanente. Operando com a técnica de Schleiniger, fizemos para o mesmo peso de amostra, quatro extrações com o mesmo reativo, empregando 100 ml de cada vez, obtendo a separação do resíduo insolúvel após centrifugação.
Em ambos os casos a dosagem do fósforo foi realizada mediante a precipitação pela mistura magnesiana, seguida da calcinação do precipitado a pirofosfato.
O teor de P 2 O 5 total encontrado oscilou em pouco mais de 24% e dele pouco mais de 95% foram encontrados como solúveis no ácido cítrico á 2%, o que representa um magnifico rendimento para a aplicação na agricultura, sem qualquer outro tratamento alem da trituração conveniente.
Sendo a ocorrência fosfatada constituída de cerca de 2 / 3 de fosfato e de carbonato de cálcio, facilmente se compreende a vantagem de sua aplicação em nossos solos, em sua maioria mais ou menos ácidos e necessitando quase sempre de um corretivo. Nesse ponto é de se salientar a recomendação aos usineiros para a adubação dos canaviais, a mistura da fosforita com torta dos filtros de cachaça, a ser utilizada após um período de fermentação necessário para formar humofosfatos.
Diante dos esplendidos resultados colhidos, os industriais pernambucanos com o apoio da SUDENE, organizaram a Fosforita Olinda S\A ( FASA) que iniciou sua produção com 100.000 toneladas anuais e esta se preparando para atingir 350.000 toneladas em igual período.
Ao fazer a presente divulgação, não me moveu o desejo de mostrar minha modesta colaboração a respeito, mas despertar em vocês hoje meus alunos, em breve meus colegas a responsabilidade que temos com a nossa Terra e a necessidade de nos libertarmos da pobreza e da ignorância.
Agora com a instalação da Usina de Paulo Afonso, com energia gabaritada e barata, estamos solidificando os alicerces da nossa economia que permitirá a expansão de todas as demais atividades inclusive, é claro o desenvolvimento da Farmácia.

Gostaria que vocês sempre lembrassem da impotancia de aproveitarmos os produtos naturais (vegetais e minerais) que muito em breve se constituirão de grande valor para a produção dos nossos medicamentos. Aqui o temos e muito.  Ass Júlio Oliveira.     “Recife, 22  de Outubro de 1962” (ortografia da época).
Ref. Bibliográficas das citações:
Revista Engenharia, Mineração e Metalurgia, fundada em 1936, Vol. XVI n. º 94 nov. /dez 1951 e Vol. XIX n. º 112 março de 1954.
Notas sobre o Forno de Cal – Prof. Paulo Duarte – Recife 1954
(*) Marcio Antonio da Fonseca e Silva
Farmacêutico e Administrador Hospitalar. Acadêmico das seguintes Academias: Nacional de Farmácia, Real Academia da Espanha, Academia Brasileira de Administração Hospitalar, Acadêmico Estrangeiro Academia do Chile e Membro da Comissão  de Divulgação do CFF.
Agradeço a Deus pelo privilégio que tive quando na minha formação acadêmica, convivendo com a pobreza no meu querido e sofrido Nordeste com professores e pessoas de altíssima formação moral e ética. Saudade!

E – mail marfonsilva@uol.com.br